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| anasus |
Ultimamente, acordar é um suplício, não é bem o acordar, é mais o encontrar o argumento certo para me convencer a abandonar o leito. O corpo fica dormente debaixo do lençol, como se aquela capa tivesse magia, a de se transformar num escudo protector contra a realidade. É como se dentro dela a dormência fosse justificação para a inacção, uma justificação maior. Quando estou envolvida na sua doce inconsciência, parece-me possível defender todos os atrasos. Parece-me viável dizer a quem quer que seja que me faltam forças para cumprir isto ou aquilo, isto ou aquilo, porque é tudo: isto ou aquilo. Claro que invento sempre uma desculpa mirabolante, da qual me vou tentando convencer, até chegar ao lugar onde sou impacientemente esperada. A verdade nunca serve de justificação, infelizmente. Sinceramente não percebo porquê, às vezes sinto que nas questões do espertar ninguém é humano, a não ser eu.
Mas hoje, consegui acordar horas antes de ser esperada, não me atrasei. Uma parte de mim rejubilou-se pelo sucedido, sentiu que era possível sentir energia, motivação, outra parte, lembrou-se que não era a primeira vez e que sempre, bem, o habitual, é o rasgo aberto de entusiasmo e depois a gasta vontade de sempre. Mesmo assim, o optimismo acostumado, aquela gana que me dá quando decido ser outra pessoa, pontual, cumpridora, determinada, esquecendo-me que vou sempre dar à maravilha na terra que sou e que não me resigno de ser.
Tive ainda tempo de ir ao mercado de La Boqueria, de me perder nas cores da fruta e de me sentir alimentada, mais pelo ver do que pelo comer. De sentir, que inteligentes são os espanhóis e que bem arrumam a fruta.
E a manhã, nem tinha bem acabado, se tivermos em consideração que os espanhóis almoçam longe da uma da tarde. Por isso, de acordo com a teoria empírica, de que a tarde começa a seguir ao almoço, temos manhã! Acordei de manhã, fiz tudo o que era suposto fazer de manhã, apesar de ter juntado o almoço ao pequeno almoço.
Já me atrasei para tanta coisa, já desisti de milhentas outras tantas, que não percebo porque fiquei. Talvez por ser portuguesa, por estar em fuga, por não me apetecer já trabalhar em bares, principalmente em sítios onde nem sei bem que tipos de café bebem. Por precisar desesperadamente de dinheiro.
Talvez tenha marcado aquele inusitado encontro porque não me queria assumir imediatamente como…