sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"Neve Visual" - I

Perco-me pelas ruas, apesar de fazer demasiado calor para estas deambulações sem rota. Mas não consigo evitar, a inquietação é forte, mais exigente que o desejo de água e sombra fresca. Temo ficar desidratada, só porque sei que quando procurar o refúgio no sono me arrisco a ver vaguear dentro dos olhos salpicos de cores brilhantes incansáveis, em vez daquele preto silencioso e profundo.
Ainda faltam quarenta e cinco minutos até ao meu encontro. Não me apetece ter que me desviar do acaso e olhar para o mapa, nem me apetece olhar para a tabuleta que diz o nome da rua, não me quero localizar. Revejo a hora no relógio, procuro um outro relógio na rua, na montra da Farmácia, a hora e o dia fogem a vermelho. Tenho o relógio adiantado dez minutos, mas a hora é certa, o dia também, não me enganei na data. Ainda não perdi nada.
 Aproveito para me ver: cabelo colado à cabeça, costas manchadas de suor, devia ter passado as calças, o lápis dos olhos escorre-me pelo rosto. Experimento um sorriso na montra, um teste de confiança rápido. Desolador.
Durante a meia hora seguinte acelero o passo. Espero ainda ter tempo de compor a máscara na casa de banho do café, nivelar os níveis de cafeína e ensaiar uma pose natural de mulher segura, interessante e profissional.
Cruzo as pernas, tiro a agenda da mala, peço também uma água, acendo um cigarro. Cheguei primeiro e por pouco ia tendo tempo de desistir e ir embora. Já as pernas se preparavam para ficarem paralelas quando uma voz, sem que a tivesse visto a aproximar, chegou.

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