Nos bares onde deixou a sobriedade permanecem as sombras parcimoniosas da mulher pequena que apenas queria esquecer a sua dimensão.
De dia as gatas correm como comboios suburbanos, são metálicas e resplandecentes. Quando a luz do sol se deita fogem para os terminais e perguntam-se se alguém ficou feliz de as ver. De dia e de noite todas as gatas são parvas.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Coisas bonitas - 1
Amanhã vou trabalhar com um sapato no pé direito e uma sapatilha no pé esquerdo!!
Ah, pois é, que chatice, já fiz isso na semana passada...
Mas não preciso de me sentir mal, certo? Já aconteceu a toda a gente, não é? É uma coisa normalíssima. Do mais banal que há, correto? Claro que não tenho que ficar preocupada, não significa nada de mais, pois não? Aliás, isso demonstra que eu possuo uma criatividade muito à frente, ando a correr a umas léguas de distância das tendências da moda, ainda que meia cocha e, e, e...
Humpf
Ah, pois é, que chatice, já fiz isso na semana passada...
Mas não preciso de me sentir mal, certo? Já aconteceu a toda a gente, não é? É uma coisa normalíssima. Do mais banal que há, correto? Claro que não tenho que ficar preocupada, não significa nada de mais, pois não? Aliás, isso demonstra que eu possuo uma criatividade muito à frente, ando a correr a umas léguas de distância das tendências da moda, ainda que meia cocha e, e, e...
Humpf
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Nada a declarar.
Eu estou bem, eu estou bem.
Estou como sempre estou.
Eu estou bem, eu estou bem.
Dia feito, noite terminada.
Eu estou bem, está tudo bem.
Tudo, tudo bem.
Está tudo bem, está tudo bem.
As coisas estão como sempre foram.
Está tudo bem, tudo muito bem.
Estamos todos bem, estamos todos muito bem.
Está tudo óptimo.
Eu estou bem, eu estou bem.
Estou como sempre estou.
Eu estou bem, eu estou bem.
Dia feito, noite terminada.
Eu estou bem, está tudo bem.
Tudo, tudo bem.
Está tudo bem, está tudo bem.
As coisas estão como sempre foram.
Está tudo bem, tudo muito bem.
Estamos todos bem, estamos todos muito bem.
Está tudo óptimo.
domingo, 21 de novembro de 2010
Ou
Talvez alguém me esteja a ler
Talvez alguém que já me amou me esteja a ler
Ou talvez alguém que não me conhece fique intrigado com todos estes disparates
Talvez alguém fique incomodado quando ouve as minhas palavras na cabeça com a sua própria voz
Talvez seja o silêncio que incomoda e não os despropósitos
Ou talvez seja o mutismo
Talvez nunca ninguém me amou
Talvez ninguém me esteja a ler
Talvez alguém que já me amou me esteja a ler
Ou talvez alguém que não me conhece fique intrigado com todos estes disparates
Talvez alguém fique incomodado quando ouve as minhas palavras na cabeça com a sua própria voz
Talvez seja o silêncio que incomoda e não os despropósitos
Ou talvez seja o mutismo
Talvez nunca ninguém me amou
Talvez ninguém me esteja a ler
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
sapatopatotu
Já não sirvo como pretexto, desculpa, sapato, que serve para enganar, desculpa, calçar, como pretexto sou, enganosa, e como sapato sou apertado, nunca consigo ser sequer calçada pela mesma razão certa que não sirvo para ser usada, sou sapato duro, apertado, desculpa, sou um pretexto duro, apertado. As vezes, fiz-me receptiva para receber, o pé. As vezes, não me importava de ser o pretexto. Mas já chega, não, mão, pé.
O quê??
Não sei porque faço tudo isto, amanhã não me lembro, não sei porque leio, ouço, passeio, se amanhã, já não sei.
Tenho uma memória tão pequenina que nem me lembro se me esqueço porque me custa lembrar ou se não me lembro por enfado ou se pura e simplesmente já não quero saber de nada.
As vezes acho que não me lembro porque, tudo, não é nada como imaginei. Meti-me em sarilhos tão grandes que ia ter vergonha de dizer à minha mini-me: olha, isto és tu com trinta anos…
Como bom pai, que sou, para mim, desejei-me o melhor dentro de uma realidade hipotética e eis-me agora, hipóteses de parte, perdida e esquecida.
Nunca pensei vir a ser uma réplica da minha mãe, ligeiramente mais sofisticada, é verdade, mas muito mais egoísta, apesar de isso me ter parecido sempre impossível. A verdade é que consigo ser muito mais egoísta do que ela. Sou ligeiramente mais sensata, porque pelo menos não pari com medo da solidão, mas bebo em nome do isolamento e fujo em nome da cobardia de não conseguir entregar-me de forma saudável. Isso, é o que se faz quando se é pequenino, a entrega, bem, não é a entrega racional, é acreditar que há um ente superior a nós que nos protege e em quem depositamos a crença de que vão cuidar de nós, e se crescemos sem isso ficámos adultos marados. Pelo menos é a conclusão a que cheguei! Portanto, mais uma desculpa fundamentada para o caos que é a minha cabeça e as relações afectivas que ela me permite ter.
Sou uma adulta esquecida e perturbada porque… não me lembro.
Tenho uma memória tão pequenina que nem me lembro se me esqueço porque me custa lembrar ou se não me lembro por enfado ou se pura e simplesmente já não quero saber de nada.
As vezes acho que não me lembro porque, tudo, não é nada como imaginei. Meti-me em sarilhos tão grandes que ia ter vergonha de dizer à minha mini-me: olha, isto és tu com trinta anos…
Como bom pai, que sou, para mim, desejei-me o melhor dentro de uma realidade hipotética e eis-me agora, hipóteses de parte, perdida e esquecida.
Nunca pensei vir a ser uma réplica da minha mãe, ligeiramente mais sofisticada, é verdade, mas muito mais egoísta, apesar de isso me ter parecido sempre impossível. A verdade é que consigo ser muito mais egoísta do que ela. Sou ligeiramente mais sensata, porque pelo menos não pari com medo da solidão, mas bebo em nome do isolamento e fujo em nome da cobardia de não conseguir entregar-me de forma saudável. Isso, é o que se faz quando se é pequenino, a entrega, bem, não é a entrega racional, é acreditar que há um ente superior a nós que nos protege e em quem depositamos a crença de que vão cuidar de nós, e se crescemos sem isso ficámos adultos marados. Pelo menos é a conclusão a que cheguei! Portanto, mais uma desculpa fundamentada para o caos que é a minha cabeça e as relações afectivas que ela me permite ter.
Sou uma adulta esquecida e perturbada porque… não me lembro.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
"Comer, orar e amar"
Javier Bardem, estás perdoado! Eu te absolvo por não saberes falar brasileiro, eu te inocento do erro de casting, porque és um pão, porque és tão giro que irrita e porque apesar dos chavões todos, passei um bom bocado no cinema.
"Eu sou a minha própria mulher"
É pá, quinta-feira à noite pareceu-me uma ideia fantástica levar-me ao teatro para ver uma peça da qual não sabia absolutamente nada e sem jantar. Bem, o início foi surreal, parados à porta do teatro surge uma voz e minutos depois um travesti que anuncia que a visita ao museu levaria uma hora e cinquenta. O meu estômago resmungou um pouco mas reconfortei-o com a expectativa de uma alimentação platónica. No entanto, o cenário foi um pouco diferente. Adorei o actor, Júlio Cardoso, que não conhecia (por ser extremamente ignorante), mas a encenação, bem a encenação derrubou todas as tentativas que fiz para evitar que os meus nervos se fizessem de convidados. Foi uma seca, diria mais, uma maçada interminável. Senti-me tentada a sair da sala várias vezes, mas o pudor e o respeito pelo trabalho do actor acabou por falar mais alto.
Pronto, eis a sinopse : “ I AM MY OWN WIFE conta-nos a história apaixonante do travesti alemão Lothar Berfel que sobreviveu aos vários regimes da Alemanha, sem nunca esconder a sua identidade sexual. A verdadeira história de Charlotte Mahlsdorf que ousou montar e preservar um fantástico museu de antiguidades e um cabaret clandestino na cave do museu, por onde circulavam nomes famosos das artes e das letras como Bertolt Brecht e Marlene Dietrich.” In http://iporto.amp.pt/eventos/eu-sou-a-minha-propria-mulher-de-doug-wright?theme=/tematicas/teatro
A história é bastante interessante, encontrei o site do museu, que ainda existe, é pena o site estar em alemão: http://www.gruenderzeitmuseum.de/. Tenho que admitir, que apesar de tudo fiquei curiosa e muito, muito triste com a minha falta de conhecimentos históricos.
Na realidade, é muito difícil perceber porque é que certas coisas falham redondamente, na minha opinião tínhamos uma boa história, um cenário razoável, um bom figurino, um actor fantástico e uma grande Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz.
Pronto, eis a sinopse : “ I AM MY OWN WIFE conta-nos a história apaixonante do travesti alemão Lothar Berfel que sobreviveu aos vários regimes da Alemanha, sem nunca esconder a sua identidade sexual. A verdadeira história de Charlotte Mahlsdorf que ousou montar e preservar um fantástico museu de antiguidades e um cabaret clandestino na cave do museu, por onde circulavam nomes famosos das artes e das letras como Bertolt Brecht e Marlene Dietrich.” In http://iporto.amp.pt/eventos/eu-sou-a-minha-propria-mulher-de-doug-wright?theme=/tematicas/teatro
A história é bastante interessante, encontrei o site do museu, que ainda existe, é pena o site estar em alemão: http://www.gruenderzeitmuseum.de/. Tenho que admitir, que apesar de tudo fiquei curiosa e muito, muito triste com a minha falta de conhecimentos históricos.
Na realidade, é muito difícil perceber porque é que certas coisas falham redondamente, na minha opinião tínhamos uma boa história, um cenário razoável, um bom figurino, um actor fantástico e uma grande Zzzzzzzzzzzzzzzzzzz.
"Não entres tão depressa nessa noite escura"
É o primeiro livro do António Lobo Antunes que leio e não me parece que vá entrar tão depressa noutra “ noite escura”. Foram duas semanas de depressão e de confusão mental e tenho que admitir que consegui ficar ainda mais neurótica. Passo a explicar a razão da osmose: a Maria Clara, a personagem central, é de um narcisismo extremo e o que vamos lendo em perto de seiscentas páginas é uma espécie de diário entre a realidade e a ficção, entre o passado e o presente, entre a neurose e a psicose, entre o suicídio e o “não estou morta mas sou infeliz que me farto”. Bem, uma mulher não é de ferro e acabei por entrar também no registo “ai, ai, ai, a minha vida que está tão má e coitada de mim quando era pequenina e agora já sou grande mas continuo completamente passada dos cornos”.
Portanto, posso apenas sugerir que António Lobo Antunes seja consumido de modo muito moderado e com supervisão do médico. Percebo a intenção, consigo até apreciar os diálogos internos mas, por vezes, tenho a sensação que as lógicas do discurso só fazem sentido para o escritor, o que torna a leitura cansativa porque andamos demasiado tempo à procura de uma coerência, que dentro do âmbito do leitor - não - vidente, não é atingível.
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