sábado, 18 de dezembro de 2010

E se perdeu as chaves de casa, a sua única hipótese de entrar no conforto do lar está a 300 km de distância, está a trabalhar e é tão anti-social que não conhece ninguém onde possa ir pernoitar?
Hum? O que é que faz?
Já gritei, já chorei, já arranquei cabelo, já disse umas palavras bem bonitas, mas não resolveu nada.
Estou chateada, estou tremendamente irritada e só me apetece ganir.  

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

E de repente todos os sinais se abriram e foi sempre em frente até ao Teatro Nacional.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


Fumo, entrada de líquido pela garganta, fumo, entrada de líquido pela garganta, fumo, entrada de líquido, fumo, saída de líquido, saída de líquido pelo autoclismo, saída de líquido pelo doseador, saída de líquido pela torneira, fumo, entrada de líquido pela garganta, entrada de líquido pela garganta, entrada de líquido pela garganta, entrada de líquido pela garganta, fumo (restam dois cigarros), entrada de líquido pela garganta, entrada de líquido pela garganta, entrada de líquido pela…

CocoRosie | By Your Side


E não é que há dias em que não devíamos mesmo sair de casa.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Chegou esta mensagem ao meu correio electrónico:


“Cara gata parva,
Quero antes de mais dizer, que anseio pelos seus post’s, tanto como anseio uma erecção matinal. Assim que acordo, corro desenfreado para o botão que tem uma circunferência e um pauzinho no meio, como se não houvesse amanhã. Espero pelo tu, mum, nu, num e aguardo impacientemente que todos os sistemas estejam on fire para clicar no ícone do Mozilla Firefox e ir ao seu blog. Nos dias em que não escreve nada, sinto uma tristeza profunda, porque adoro saber que peças vê, que erros ortográficos irá dar, qual a sua opinião sobre os livros que lê, qual a sua música do dia e depois, pronto, tenho que admitir, ponho-as no repeat vezes e vezes sem fim, até decorar a letras, mesmo as estrangeiras.
Cara gata, se é que lhe posso chamar isso, não quero ser indelicado, mas estar a chamar parva a uma pessoa que nem sequer conheço pessoalmente, admito, não me parece de bom-tom, por isso, cara gata, enquanto via o documentário sobre o José e a Pilar, lembrei-me que a menina , não era careca e isso, sossegou-me (espero mesmo que não seja um senhor de idade).
Sabe como é este meio, nunca ninguém diz verdadeiramente quem é. Eu próprio já contribuí para a má fama que as questões da verdadeira identidade na internet têm, eu próprio, num chat, auto-entitulei-me de pila grande, quando na verdade, bem na verdade, tenho uma pila perfeitamente mediana.
Mas no fundo, cara gata, o que este fã, lhe quer dizer, ou seja, o que eu lhe quero dizer, é que continue a ser como é, igual a si própria que é o que eu acho que tem feito. Que isso de uma pessoa ser igual a si própria é obra! Por isso, muitos parabéns e espero um dia vir a conhece-la pessoalmente. No entretanto, vou-me limitando a estar próximo de si como leitor e ouvinte das coisas que tira do Youtube.
Eternamente,
Seu."

Video: Deolinda "Fado Toninho"

Bonita lua

anasus

Bonito anoitecer
Bonito
Oh, que prazer me dá este anoitecer bonito
O sol que se deita
Bonito
A lua a nascer
Bonita lua
Bo-ni-ta lu-a
Ah, lua bonita
No céu a acordar
Bonita lua
Bo-ni-ta
O entardecer e o anoitecer
Que bonita simbiose
Simbiose bo-ni-ta
Que bonito que tudo é

Cat Power - Good Woman

No fim da linha


É hora de terminar a relação com os já quase no fim das linhas… Tenho o terrível hábito de não conseguir dizer adeus aos livros que começo a ler. No último capítulo, a nostalgia instalasse e o livro passa a ser o renegado, o viajante passivo dentro da mochila, e as páginas que outrora eram abertas com frenesim e excitação são deixadas fechadas. Como se aquele que outrora foi o amante apetecido, não mais despertasse desejo.
Imagino, e sei que isto pode parecer ridículo, o livro atrás das grades, numa espécie de corredor da morte, em que cada página a menos é o aproximar do eterno descanso, do fim da viagem, o do repouso eterno na estante da sala. O que resta depois? A memória dos risos e das tristezas partilhadas, que a cada dia que passa se torna mais vaga.
Na semana passada, acabei de ler “A viagem do elefante”, deixei o Salomão para trás a cumprir a sua última e triste função após tantas viagens. No mesmo dia, fui ver o documentário do José e da Pilar. Foi uma coincidência engraçada, porque não fazia ideia de que tinha sido feito na altura em que o Saramago estava a escrever “A viagem do elefante”. Adorei o filme, primeiro porque sou fã do nosso Nobel e depois porque há sempre um certo voyeurismo que fica saciado. Fiquei a conhecer um pouco mais do processo criativo de uma pessoa capaz de criar novos mundos com as palavras e claro também dos seus hábitos. O Saramago jogava solitário e eu também. Ele escrevia duas páginas por dia, eu leio. O Saramago via a morte de uma maneira muito inteligente, eu ainda não pensei nisso. O Saramago era velho e careca, eu tenho bastante cabelo. O Saramago morreu, eu ainda tenho vários livros dele para ler. Já é algum consolo.
Para já, antes de terminar “Zen e a arte do tiro com arco”, porque já tive a minha dose mensal de encerramentos, vou viajar até Veracruz, na companhia de Enrique Vila- Matas, com quem, já viajei outras vezes com prazer. E por agora, vou parar de encher com caracteres esta página cada vez menos em branco para seguir os carris ordenados da impressão de um livro bem escrito.

domingo, 5 de dezembro de 2010

IV microconto

Amar-te foi a versão mais humana, mais fiel, que alguma vez poderia ter alcançado desta condição de viver. Tudo o resto é sobre-humano.

"Neve Visual" - II

anasus

Ultimamente, acordar é um suplício, não é bem o acordar, é mais o encontrar o argumento certo para me convencer a abandonar o leito. O corpo fica dormente debaixo do lençol, como se aquela capa tivesse magia, a de se transformar num escudo protector contra a realidade. É como se dentro dela a dormência fosse justificação para a inacção, uma justificação maior. Quando estou envolvida na sua doce inconsciência, parece-me possível defender todos os atrasos. Parece-me viável dizer a quem quer que seja que me faltam forças para cumprir isto ou aquilo, isto ou aquilo, porque é tudo: isto ou aquilo. Claro que invento sempre uma desculpa mirabolante, da qual me vou tentando convencer, até chegar ao lugar onde sou impacientemente esperada. A verdade nunca serve de justificação, infelizmente. Sinceramente não percebo porquê, às vezes sinto que nas questões do espertar ninguém é humano, a não ser eu.
Mas hoje, consegui acordar horas antes de ser esperada, não me atrasei. Uma parte de mim rejubilou-se pelo sucedido, sentiu que era possível sentir energia, motivação, outra parte, lembrou-se que não era a primeira vez e que sempre, bem, o habitual, é o rasgo aberto de entusiasmo e depois a gasta vontade de sempre. Mesmo assim, o optimismo acostumado, aquela gana que me dá quando decido ser outra pessoa, pontual, cumpridora, determinada, esquecendo-me que vou sempre dar à maravilha na terra que sou e que não me resigno de ser.
Tive ainda tempo de ir ao mercado de La Boqueria, de me perder nas cores da fruta e de me sentir alimentada, mais pelo ver do que pelo comer. De sentir, que inteligentes são os espanhóis e que bem arrumam a fruta.
E a manhã, nem tinha bem acabado, se tivermos em consideração que os espanhóis almoçam longe da uma da tarde. Por isso, de acordo com a teoria empírica, de que a tarde começa a seguir ao almoço, temos manhã! Acordei de manhã, fiz tudo o que era suposto fazer de manhã, apesar de ter juntado o almoço ao pequeno almoço.
Já me atrasei para tanta coisa, já desisti de milhentas outras tantas, que não percebo porque fiquei. Talvez por ser portuguesa, por estar em fuga, por não me apetecer já trabalhar em bares, principalmente em sítios onde nem sei bem que tipos de café bebem. Por precisar desesperadamente de dinheiro.
Talvez tenha marcado aquele inusitado encontro porque não me queria assumir imediatamente como…

PERFECT DAY - Lou Reed

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

"Neve Visual" - I

Perco-me pelas ruas, apesar de fazer demasiado calor para estas deambulações sem rota. Mas não consigo evitar, a inquietação é forte, mais exigente que o desejo de água e sombra fresca. Temo ficar desidratada, só porque sei que quando procurar o refúgio no sono me arrisco a ver vaguear dentro dos olhos salpicos de cores brilhantes incansáveis, em vez daquele preto silencioso e profundo.
Ainda faltam quarenta e cinco minutos até ao meu encontro. Não me apetece ter que me desviar do acaso e olhar para o mapa, nem me apetece olhar para a tabuleta que diz o nome da rua, não me quero localizar. Revejo a hora no relógio, procuro um outro relógio na rua, na montra da Farmácia, a hora e o dia fogem a vermelho. Tenho o relógio adiantado dez minutos, mas a hora é certa, o dia também, não me enganei na data. Ainda não perdi nada.
 Aproveito para me ver: cabelo colado à cabeça, costas manchadas de suor, devia ter passado as calças, o lápis dos olhos escorre-me pelo rosto. Experimento um sorriso na montra, um teste de confiança rápido. Desolador.
Durante a meia hora seguinte acelero o passo. Espero ainda ter tempo de compor a máscara na casa de banho do café, nivelar os níveis de cafeína e ensaiar uma pose natural de mulher segura, interessante e profissional.
Cruzo as pernas, tiro a agenda da mala, peço também uma água, acendo um cigarro. Cheguei primeiro e por pouco ia tendo tempo de desistir e ir embora. Já as pernas se preparavam para ficarem paralelas quando uma voz, sem que a tivesse visto a aproximar, chegou.