É hora de terminar a relação com os já quase no fim das linhas… Tenho o terrível hábito de não conseguir dizer adeus aos livros que começo a ler. No último capítulo, a nostalgia instalasse e o livro passa a ser o renegado, o viajante passivo dentro da mochila, e as páginas que outrora eram abertas com frenesim e excitação são deixadas fechadas. Como se aquele que outrora foi o amante apetecido, não mais despertasse desejo.
Imagino, e sei que isto pode parecer ridículo, o livro atrás das grades, numa espécie de corredor da morte, em que cada página a menos é o aproximar do eterno descanso, do fim da viagem, o do repouso eterno na estante da sala. O que resta depois? A memória dos risos e das tristezas partilhadas, que a cada dia que passa se torna mais vaga.
Na semana passada, acabei de ler “A viagem do elefante”, deixei o Salomão para trás a cumprir a sua última e triste função após tantas viagens. No mesmo dia, fui ver o documentário do José e da Pilar. Foi uma coincidência engraçada, porque não fazia ideia de que tinha sido feito na altura em que o Saramago estava a escrever “A viagem do elefante”. Adorei o filme, primeiro porque sou fã do nosso Nobel e depois porque há sempre um certo voyeurismo que fica saciado. Fiquei a conhecer um pouco mais do processo criativo de uma pessoa capaz de criar novos mundos com as palavras e claro também dos seus hábitos. O Saramago jogava solitário e eu também. Ele escrevia duas páginas por dia, eu leio. O Saramago via a morte de uma maneira muito inteligente, eu ainda não pensei nisso. O Saramago era velho e careca, eu tenho bastante cabelo. O Saramago morreu, eu ainda tenho vários livros dele para ler. Já é algum consolo.
Para já, antes de terminar “Zen e a arte do tiro com arco”, porque já tive a minha dose mensal de encerramentos, vou viajar até Veracruz, na companhia de Enrique Vila- Matas, com quem, já viajei outras vezes com prazer. E por agora, vou parar de encher com caracteres esta página cada vez menos em branco para seguir os carris ordenados da impressão de um livro bem escrito.
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